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29 de julho de 2008

Entrevista de Iván Márquez integrante do Secretariado das FARC-EP, a William Parra, TELESUR.

O jornalista William Parra, de TELESUR, entrevista a Iván Márquez, integrante do Secretariado das FARC-EP


Sexta-feira, 25 de julho de 2008





Em primeiro lugar, o que significa a morte do Comandante Manuel Marulanda Vélez e como tem sido aceita pelas FARC a desaparição de seu líder histórico?

Significa a ausência dolorosa de um imprescindível; do construtor do Exército do Povo; do estrategista da Campanha Bolivariana pela Nova Colômbia; do legendário Comandante, artesão da concepção táctica, operacional e estratégica das FARC e da guerra de guerrilhas móveis; do condutor político da Insurgência… Manuel Marulanda Vélez -como nos versos de Neruda- "não morreu. Está em meio à pólvora, de pé, como mecha ardendo". Segue combatendo desde as montanhas rebeldes da eternidade. Segue vivo nos fuzis dos guerrilheiros farianos, no Plano Estratégico, na Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia e no anseio coletivo da Pátria Grande e o Socialismo, que são como uma imensa bandeira ao vento. Perante nosso Comandante em Chefe, perante o altar da Pátria, juramos vencer, e venceremos. Como assimilarmos essa ausência? Reafirmando nossa determinação de luta. Fortalecendo nossa coesão. Ratificando-nos em nossos princípios. Empunhando com mais forca o livro e os fuzis do imbatível escudo guerrilheiro das FARC.

Segundo seu ponto de vista, qual o maior legado de Manuel Marulanda Vélez para o país?

Ter criado as bases para o Novo Poder com a construção de um Exército Popular bolivariano, com estruturas sólidas e coesas, em torno do Plano Estratégico, irreversível em seu propósito de tomada do poder para o povo. Manuel Marulanda Vélez é exemplo de convicção, de perseverança e de luta incessante. Jamais seremos inferiores à fé que têm depositado os povos de Nossa América na luta de resistência das FARC. Suas múltiplas manifestações de solidariedade nos levam a exclamar com o Libertador Simón Bolívar: "É imperturbável nossa resolução de independência ou nada".

Pode fazer um breve esboço de Manuel Marulanda Vélez?

Estou escrevendo um, titulado MANUEL MARULANDA VÉLEZ o herói insurgente da Colômbia de Bolívar. Por enquanto só respondo sua pergunta com os versos épicos do poeta Luis Vidales: "Canto Colômbia a Manuel, o guerrilheiro/ é esse, América Latina, o que eu canto/ a esse, mundo de hoje, vos o apresento/ Manuel é o pai da selva colombiana/ é o pastor da paz no rebanho/ Manuel é irmão dos rios e do vento/ e lá onde é mais livre a montanha/ doce pátria rumo ao céu, lá o sinto/ Em seu louvor a noite iluminada/ solta seu tiroteio de luzeiros/ As altas terras limpas o viram colombiano/ e o ar puro lhe foi dócil a seu sono/ A águia que passa é um disparo/ cada ave é como um papel que cruza o céu/ Para falar-lhe de pátria as árvores sussurram/ e o mastro da palmeira flameja sua bandeira/ para indicar que passa o guerrilheiro/ Um momento! lhe diz a límpida manhã/ e sobre um sobrado dos Andes americanos/ tira-lhe uma foto espectral de corpo inteiro/ As árvores são como esquadras de seu exército/ por defensor do pobre, parente próximo do trigo/ como a esse lhe sucede: que quarenta vezes têm-no deixado morto/ só para ficar quarenta vezes vivo.

Morreu o Comandante Marulanda em um mau momento para as FARC; o mês de março foi muito duro para a organização insurgente; perderam não só Raúl Reyes e Iván Ríos… Peço-lhe um comentário sobre as circunstâncias lutuosas que caracterizaram esse mês.

Os revolucionários não escolhem o momento de morrer, mas em qualquer lugar onde os surpreenda a morte, bem-vinda seja, como diz O Che, sempre que esse, nosso grito de luta –e isto é dito por mim- de luta pela Paz com justiça social, pela independência, o Socialismo e Pátria Grande, chegue a um ouvido receptivo. A luta é até as últimas conseqüências porque "em uma revolução se triunfa ou se morre se é verdadeira". Os desenlaces dolorosos são previsíveis em uma confrontação. Muito mais em nosso caso, pois enfrentamos um inimigo com grande poder de fogo, que tem degradado a guerra e que conta com todo o apoio da tecnologia militar de ponta e milhões de dólares do governo dos EUA no marco de sua espoliadora estratégia de domínio e subjugação. Mas, podemos afirmar que, apesar do triunfalismo mediático, estamos saindo da horrível noite de março com novas experiências e com um horizonte claro para continuar a luta pela paz, a justiça social, a democracia verdadeira e a dignidade.



Para muitos, esses golpes, essas mortes, deixam as FARC em difícil situação. Vários analistas consideram que esta guerrilha está quase derrotada militarmente. ¿Estão certos?

Não conhecem as FARC. Confundem o desejo com a realidade e enganam-se com suas próprias fantasias. O Exército das FARC não é amador nem carece de experiência. Acontece com ele tal qual com Bolívar, que crescia diante da adversidade. Sobre o fim das FARC vêm falando desde o ataque à Marquetalia, em maio de 1964. Durante 44 anos o império norte-americano e a oligarquia colombiana têm desenrolado, um após o outro, inúmeros planos e operações militares para aniquilar essa força revolucionaria, mas não puderam derrotá-la. Primeiro, foi o Plano LASO, sigla em inglês que significa Operação Latino-americana de Segurança; seu objetivo: impedir o surgimento de uma nova Cuba no Continente, daí a Operação Marquetalia. Logo montaram a Operação Sonora que buscava derrotar militarmente as FARC na Cordilheira Central, mas não levaram em conta que enfrentavam os guerreiros de Manuel. Depois, lançaram a Operação Centauro ou Casa Verde, mas os agressores tiveram que regressar com o rabo entre as pernas à Base militar de Tolemaida, onde foram recebidos por seus mentores e instrutores ianques. A essas agressões seguiram como enxurradas, os planos Thanatos, Destructor I, Destructor II o Plano Colômbia; paralelamente a estes desataram o horror do paramilitarismo criminal, de estratégia contra-insurgente do Estado, que buscava destruir o que considerava como bases sociais da guerrilha através dos massacres, as covas comuns e a moto-serra. E, nestes últimos anos, com o Plano Patriota, desenhado pelos estrategistas do Comando Sul do exército dos Estados Unidos, com o uso de sofisticadas tecnologias militares, com satélites, aviões e aparatos não tripulados, com uma força que ultrapassa os 400 mil efetivos e milhares de assessores e mercenários ianques, com a "ajuda" militar de Washington, com dezenas de helicópteros e dez bilhões de dólares no último período, aspiram mediante um esforço desesperado derrotar a insurgência e a inconformidade popular. Nem o fogo, nem as bombas das operações militares das oligarquias e o império, nem as passeatas manipuladas conseguirão desarticular a resistência e a luta por uma Colômbia Nova e bolivariana. A luta armada na Colômbia tem vigência porque os problemas políticos, econômicos e sociais que lhe deram origem, não foram solucionados. Em 1984, com o Acordo de La Uribe, tentamos a luta pela via eleitoral, mas a alternativa política fruto desse Acordo, a União Patriótica, foi brutalmente exterminada aos tiros. Cinco mil entre dirigentes e militantes foram assassinados pela intransigência do regime santanderista que oprime a Colômbia. Por isso, agora lutamos clandestinamente através do Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia. Nas FARC existem pessoas de principios. Somos índios bravos. Não nos seduzem com cantos de sereia. Estamos prontos para entrar em combate, com passo de vencedores, ao Ayacucho do século XXI, ao qual convocamos todos os povos de Nossa América. Parafraseando a Bolívar: estamos como o sol; brotando raios por todas as partes.



O que pode nos dizer sobre a versão do Presidente Uribe e do ministro da defesa, Juan Manuel Santos, que afirmam que a morte do Comandante Marulanda não foi conseqüência de uma parada cardíaca, mas dos intensos bombardeios ou por susto?

Tanto o Presidente Uribe quanto seu ministro, estão fazendo uso da mais incrível e insana burrice. Só poderia caber na sua cabeça de um imbecil que o legendário guerrilheiro que enfrentou durante 60 anos a 17 governos e a todos seus Estados Maiores das Forças Armadas pudesse morrer de susto. Essa pretensão tão improcedente, só provoca hilaridade e indignação. Como disse o mesmo Comandante Manuel: "a gente não morre por disparos de palavras".

Como foi decidida a designação de Alfonso Cano como Comandante máximo das FARC e que variações implica essa determinação na condução da organização?

Implica a continuidade dos planos. E sobre a forma como decidimos sua designação como novo Comandante em Chefe das FARC, posso lhe dizer que foi por unanimidade, no dia 27 de março, uma vez informados da lamentável noticia do óbito do Comandante Manuel Marulanda. Nesse mesmo dia decidimos, também, adiar essa notícia até o dia 23 de maio para comunicá-la no marco do aniversário dos 44 anos das FARC. Todo o Estado Maior Central, o Secretariado, assim como as guerrilheiras e os guerrilheiros, como um só corpo, respaldam ferreamente o Comandante Alfonso Cano.

Muitos críticos e analistas afirmam que, com a chegada do Comandante Cano à chefia das FARC, abrem-se novas possibilidades para iniciar uma negociação; uma nova oportunidade para o Intercâmbio Humanitário e a paz. Qual a sua opinião sobre essas afirmações?

As políticas das FARC estão definidas já. São determinadas por nossas Conferências e as reuniões Plenárias do Estado Maior Central. Temos uma linha tática e outra estratégica, elaboradas coletivamente. A paz tem sido e é sempre nosso principal objetivo estratégico, e nisto coincidimos com o Libertador para quem "a insurreição se anuncia com o espírito de paz, se resiste contra o despotismo porque este destrói a paz, e não toma as armas, a não ser para obrigar seus inimigos à paz".

Os acontecimentos do dia 2 de julho, que culminaram na libertação de 15 prisioneiros pareceram indicar que os resgates militares solucionam esse problema. O que aconteceu nas selvas do Guaviare?

No inesperado resgate de 15 prisioneiros de guerra nas selvas do Guaviare, nem Uribe nem Santos, nem os generais Padilla e Montoya são os heróis, pois para essa operação só colaboraram com os helicópteros, já que todo o trabalho esteve a cargo dos dois traidores, que logo, logo, foram traídos pelos generais e o governo. O feito foi aproveitado para elogiar o Presidente, os militares, a política de Segurança Democrática, mas sobretudo, para tapar a escandalosa ilegitimidade e ilegalidade do segundo mandato do senhor Uribe, surgido do delito de suborno que favoreceu sua reeleição imediata. Buscava o Presidente Uribe dissimular seu talante de desaforado ditador que ataca com todos os fogos de sua ira os falhos da Corte Suprema que lhe são adversos. Atuando por fora de seu próprio estado de direito pretende derrubar desde o Palácio de Nariño, com poderosas cargas explosivas, a independência da Corte. Tem submetido o Setor Legislativa do Poder Público, já; agora quer cooptar o Setor Jurisdicional.

A propósito dessa libertação do dia 2 de julho o Comandante Fidel Castro tem dito que as FARC jamais deveriam ter capturado Ingrid Betancurt e que também não deveriam ter nas condições da selva em prisão os soldados e civis. Ele assinala isto como um ato de crueldade. Qual sua opinião sobre esse argumento do Comandante?

Não gostaria de expressar sentimentos que estimula esse tipo de posições. Somente quero dizer que as FARC estão em todo seu direito de buscar por todos os meios a liberdade dos combatentes guerrilheiros presos tanto nos cárceres do regime quanto nos do Império. Buscamos uma saída que ponha fim ao sofrimento do cativeiro dos prisioneiros das duas partes enfrentadas. Deve-se pensar também na crueldade das correntes que suportam os nossos nas masmorras do regime uribista e nas do império, que são as mesmas que padecem os 5 heróis cubanos e os milhares de prisioneiros violentados em seus direitos, como ocorre nos cárceres de Abu Grahib e de Guantánamo. Gostaria de acrescentar que na Colômbia alguns dirigentes políticos são mais militaristas e guerreristas que os próprios militares. Muitos deles instrumentam e são protagonistas ativos da legislação de guerra e da repressão contra o povo da Colômbia por conta do Terrorismo de Estado.

O presidente Uribe fala de cercos humanitários sobre os possíveis acampamentos onde se encontram os prisioneiros de guerra. Que significado tem para as FARC esse anuncio? Continua a ordem de não permitir o resgate à sangue e fogo?

Não existem cercos humanitários, em assuntos de guerra os cercos são cercos militares. Com os tais cercos humanitários o governo busca enganar para dar a sensação de que tem controle territorial, controle que nunca existiu. Por trás dos cercos humanitários existe uma ordem infame de Uribe a seus generais de resgatar à sangue e fogo os prisioneiros, sem que importem as conseqüências. Nestas circunstâncias, qualquer desenlace fatal será responsabilidade do senhor Uribe.

O governo francês tem oferecido receber todos os membros das FARC que estejam incluídos no intercâmbio. Estariam as FARC dispostas a deixar que os guerrilheiros liberados, sejam levados para outro país?

Essa idéia é em si mesma uma afronta desrespeitosa à dignidade dos guerrilheiros das FARC. Os verdadeiros combatentes não trocam as montanhas da Pátria, nem suas convicções por um humilhante desterro em ultramar.

A França assumiu a presidência da União Européia no dia 1 de julho. Dado o interesse desse país no intercambio humanitário, as FARC pensarão na possibilidade de buscar o reconhecimento político, o reconhecimento de beligerância e a retirada de seu nome da lista de grupos terroristas?

De fato somos uma força beligerante à espera dos que estejam dispostos a buscar a Paz na Colômbia, e, para isso, façam esse reconhecimento. É uma condição temporal, enquanto se resolve o conflito de legitimidades. O qualificativo de terroristas não é mais do que uma imposição do maior terrorista da Humanidade: o governo dos Estados Unidos.

A mídia fala profusamente que as FARC estão golpeadas política e militarmente, assim como dizimadas tanto em número de combatentes quanto nos recursos econômicos. Os analistas expressam que as FARC passam pelo pior momento de sua história; Quão golpeadas estão as FARC?

Na realidade, o que lhes preocupa é um eventual desencadeamento da inconformidade social junto à existência de uma guerrilha bolivariana como as FARC, que tem completado já o posicionamento estratégico de sua força em todo o território nacional. Por isso o Plano Patriota e o aumento da intervenção militar dos Estados Unidos na Colômbia. Por isso a Base Aérea de Três Esquinas foi convertida em uma Base Militar estadunidense na Amazônia. E sabemos para que. Se as FARC estivessem esquartejadas, eles não estariam anunciando o traslado da Base ianque de Manta para Colômbia. O que está se decompondo mais e mais é a apodrecida institucionalidade burguesa, salpicada de sangue e cocaína, narco-paramilitarismo e ilegitimidade.

Nos atuais momentos é possível que se possa chegar a uma negociação de paz com o governo Uribe?

Com Uribe a paz não passa de uma quimera. A solução política do conflito só será possível com outro governo, e muito mais, se ele surge como resultado de um Grande Acordo Nacional, no qual desempenhem o papel principal, as forças das mudanças e o Soberano, que é o Povo. Um novo governo, que por ter a Paz como seu objetivo máximo, recolha as tropas em seus quartéis e mande de volta os ianques para sua casa.

Qual a caracterização que as FARC têm neste momento do governo de Uribe e da situação da institucionalidade colombiana em meio ao escândalo da narco-para-política e outros inocultáveis fatos como aquele da Yidis-política?

É um governo narco-paramilitar, ilegítimo e ilegal. Só não caiu, ainda, porque é mantido em pé pelo criminal apoio do governo de Washington, o Terrorismo de Estado, a manipulação da opinião através de campanhas da grande mídia, os massacres, o despojo de terras, o despejo forçoso, a moto-serra, as fraudes e o suborno. Estados Unidos necessita um regime como o colombiano, para utilizá-lo como ponta-de-lança para o assalto neoliberal ao Continente.

As FARC têm dito que o governo de Uribe Vélez é ilegal e ilegítimo. Por que, então, se mantém, segundo difunde a imprensa colombiana, nos mais altos níveis de popularidade; por que não cai esse governo?

As pesquisas não consultam 70% da população sumida na miséria e na pobreza, nem os mais de 4 milhões de deslocados de suas terras pelo Terrorismo de Estado. Não consultam 50% da população economicamente ativa que sofre a angustia cotidiana do desemprego ou o trabalho informal. Não consultam os sindicalistas perseguidos, nem os indígenas violentados, nem as negritudes esquecidas, nem os estudantes reprimidos. Os 80% de popularidade de Uribe é una farsa, resultado da mais asquerosa manipulação da opinião.

O que se pode esperar da nova geração de Comandantes que tem assumido a condução das FARC: uma línha militar mais dura ou pelo contrário, a chegada à política total?

Continuar o caminho traçado pelo inesquecível Comandante em Chefe, Manuel Marulanda Vélez, quer dizer, aquele da política total, que é a luta estratégica pela tomada do Poder pela via das armas e da insurreição, com o qual se chegaria a um governo revolucionário, ou pela via das alianças políticas rumo à instauração de um governo verdadeiramente democrático, em consonância com a Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia.

Segundo os supostos computadores do Comandante Raúl Reyes, as FARC têm sido financiadas pelo governo do Presidente Hugo Chávez. O qué há de certo nisso?

Se fosse assim, teríamos derrubado já esse governo lacaio dos EUA. Essa afirmação é um pretexto intervencionista. O que deve chamar a atenção de América Latina e do mundo são os dez bilhões de dólares que a Casa Branca tem aportado ao governo terrorista de Uribe, para massacrar, desaparecer, despojar, deslocar... o povo. Colômbia é o primeiro receptor de ajuda militar dos Estados Unidos neste Hemisfério e, o terceiro no mundo. Claro, o governo de Washington apóia desta maneira seu testa-de-ferro predileto, na desestabilização da região, pensando na contenção da poderosa força bolivariana que já se vê no horizonte deste século. Um tribunal dos povos deve conduzir ao banco dos acusados o Império ladrão e violento que quer seguir subjugando os povos.

As FARC financiaram a campanha presidencial de Rafael Correa no Equador?

Mas, com o que? Isso é um contrasenso. São as FARC que necessitam da ação do internacionalismo solidário dos povos do mundo.

Com todas as dificuldades que se têm apresentado, em torno do tema da presença guerrilheira, como pretexto para criar a crise diplomática entre Colômbia e Equador ou entre Colômbia e Venezuela, não vêm a necessidade de uma reformulação de sua forma de luta, sobretudo, quando está latente a ameaça dos Estados Unidos, com o argumento de que atuará contra os que apóiem o terrorismo?

A luta armada não está em questão. As causas que a motivaram não foram superadas. Continuam. As oligarquias só querem uma paz que não toque seus privilégios, que não modifique as injustas estruturas políticas, econômicas e sociais que têm causado a pobreza pública. A estratégia de dominação dos Estados Unidos já está traçada e o pretexto é o que menos lhes importa. Eles estão correndo atrás do petróleo da Venezuela, do gás da Bolívia, das riquezas da Amazônia...., e, que nossos povos fiquem com os buracos e a miséria. Por isto, necessitamos articular a resistência às políticas agressivas do Império. Gostaria de recordar que nos fuzis guerrilheiros das FARC resistem os povos de Nossa América. E quanto à pertinência da luta armada, uma reflexão do Libertador: "Mesmo que sejam alarmantes as conseqüências da resistência ao poder, não é menos certo que existe na natureza do homem social um direito inalienável que legitima a insurreição". Enquanto existirem as FARC ninguém poderá tomar o fuzil de Che.

A Guajira é da Venezuela como diz o Presidente Chávez?

Sem dúvida La Guajira pertence à Colômbia de Bolívar e do primeiro precursor da Independência de Nossa América, o Generalíssimo Francisco de Miranda. Nosso critério é o mesmo exposto pelo Libertador a Páez: "Esqueci de lhe dizer que temos pensado fundir juntas, duas ou três metades dos Departamentos de Boyacá, Zulia e Barinas, para que não haja mais fronteira de Venezuela nem da Nova Granada, porque esta divisão é a que está nos matando, e portanto devemos destruí-la". Uma reafirmação final: Juramos vencer, e Venceremos.

24 de julho de 2008

CQC - Proteste Já Qualidade do transporte em Brasília




Um ótimo vídeo com uma crítica ao transporte público de Brasília, que além de ter as passagens absurdamente caras, possui uma frota de ônibus velha e muitas vezes sem manutenção adequada.

Essa é só uma parte da realidade do transporte público de Brasília.

Por ser a capital da república, deveria ser exemplo pro resto do país, mas o que se vê são tarifas caras, não tem passe livre estudantil, os rodoviários recebem um salário baixo, sem contar na rodoviária que está caindo aos pedaços.

O Governo Arruda acabou com o transporte alternativo e disse que ia colocar não sei quantos microônibus nas ruas, até hoje ninguém viu nenhum. Enquanto isso as empresas privadas seguem lucrando, e como sempre, com muito dinheiro nas mãos de poucos, o investimento ao invés de ir para o próprio transporte público, vai pro bolso dos monopolistas.

Transporte caótico. É essa a realidade. Mas com luta podemos mobilizar a população pobre e dependente do transporte público. Podemos unir essa luta com tudo o que está relacionado ao transporte público, nossa luta é ampla, e vai além do que se vê. Queremos um transporte público de verdade, sem grandes empresários lucrando com nosso dinheiro, queremos passe livre estudantil, melhores salários e mais segurança!

Queremos um Transporte Público de Qualidade!!!

Fora Iniciativa Privada!!!

Passe Livre Já!!!







23 de julho de 2008

Brasília-Bicicletada Autônoma


Sexta 25 de Julho
17 horas
atrás do Cine Brasília

Fonte: CMI

12 de julho de 2008

Acabou a Era da Comida Barata





A crise anunciada no setor alimenticio não é ainda nem a metade do que está por vir.

Hoje no mundo a estimativa é que 52 milhões de pessoas passam fome, e com as contradições de um sistema capitalista neoliberal globalizado, que barateia produtos industriais e encareçe os alimenticios, esses dados tendem e aumentar numa proporção absurda!

Só na América-Latina a tendência é a fome aumentar em 10 vezes.

Enquanto isso, as disparidades só aumentam. E as pessoas seguem achando "normal" muito dinheiro na mãos de poucos, investimentos de bilhões em guerras e armas...

É incrivél como as pessoas se deixam passar despercebidas diante do que o sistema as impõe todos os dias, reclamam do preço do arroz, do preço do feijão, mas logo coisas mais importantes como quem matou fulano na novela das oito toma conta da mente. Parece que esse tipo de informação cauteriza na mente das pessoas, e elas esquecem do que é realmente importante.

Por que é um absurdo comprar um aparelho qualquer desses futéis digitais modernos por menos do que vale uma cesta básica. A globalização dá acesso a todos a informação, a modernização, a eletrodomésticos inovadores, e isso e aquilo e outro, mas se esqueçe de uma coisa. Nada disso é comestivél!

A mídia burguesa se mostra sempre pronta a criticar a economia de Cuba, chamando-a de retrograda, de atrasada, mas a verdade é que NÓS estamos acostumados com futilidades, com essa inversão de valores que o capitalismo nos faz aceitar até mesmo sem perceber.

Essa crise vai aumentar gradativamente, e os paises baixos serão os mais afetados. Desde que o mundo é mundo, os paises pobres trabalham, plantam e colhem pra alimentar e sustentar sobre suas costas os paises ricos.

E agora que acabou a era da comida barata as contradições estarão cada vez mais visiveis...



Bebida é água, comida é pasto. Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.
A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida, a gente quer a vida como a vida quer.




xPhaby Alvesx

Salud y Revolución

1 de julho de 2008

DIAGNÓSTICO DA (triste) REALIDADE


DIAGNÓSTICO DA REALIDADE


Nós vivemos em um mundo que esta cada vez pior. Há destruição, guerras, fome, doenças, tristeza e uma infinidade de palavras que expressam todos os males que estão ao nosso redor no dia-dia.
É impossível não ver no olhar de cada pessoa a tristeza, a indignação, e a revolta diante de tudo o que está acontecendo ao nosso redor. Já não ouvimos, não vemos palavras e atos de paz, amor, esperança e solidariedade.
As pessoas estão cada vez mais conformadas com um futuro pessimista. As crianças estão crescendo moldadas por um sistema que as ensina a serem egoístas, individualistas e competitivas. Os valores estão sendo invertidos, e hoje solidariedade é loucura.
O mundo está caminhando cada dia mais rumo à própria destruição, não se respeita a natureza nem o próximo, existe muito dinheiro concentrado nas mãos de poucos, e o resto do mundo que não se encontra incluso nessa elite, passa toda sorte de sofrimento possível e imaginável.
Estamos de luto diante de toda essa corrupção, de guerras, de destruições. Não falo aqui só das guerras declaradas, mas também, de uma guerra civil que acontece diante de nossos olhos todos os dias, e que muitas pessoas acomodadas na sua hipocrisia, fingem não ver.
A guerra que acontece quando uma criança perde sua infância para a criminalidade e começa a lutar contra a sociedade que a rejeitou, a guerra que acontece quando um filho mata o seu próprio pai, a guerra que acontece quando a natureza começa a expressar sua raiva, através de desastres ecológicos, por ser tão maltratada pelo ser humano, a guerra que acontece nos senados e câmaras pelo poder, pelo dinheiro do povo que elege cada vez mais pessoas corruptas e incapacitadas de resistir diante do inimigo, à guerra entre um mundo pobre e o imperialismo de uma nação rica que insiste em nos manter debaixo dos seus pés, a guerra que acontece dentro de nós quando queremos ser melhores e ao mesmo tempo não queremos abandonar o nosso conformismo.
Essa é a realidade em que vivemos, e está somente em nossas mãos o poder de mudá-la, precisamos deixar de lado os pensamentos egoístas e começar a olhar mais para o nosso redor e ver a realidade com nossos olhos e não através da TV, precisamos olhar pra dentro de nós e buscar no nosso interior algum resquício de sentimentos bons que nos faça revolucionar primeiramente a nós mesmo, pois ninguém é obrigado a mudar o mundo, mas tem o dever de mudar a si mesmo.
Por que se não mudarmos primeiramente nosso interior, nos libertando de toda hipocrisia, conformismo, preconceitos, quando finalmente chegarmos a ter o poder de mudar esta situação, seremos piores do que aqueles que antes criticávamos. A 1° Revolução tem que ser feita de dentro pra fora!
Sabemos que nessa caminhada de luta, não há saída para aqueles que lutam por dias melhores, alguns morreram antes de verem seu sonho realizado, outros se perderam no caminho, mas mesmo que sejem poucos, há aqueles que resistem até o final, confrontando com todas as forças, o sistema que tanto maltrata nossos irmãos.
Aqueles que gritam bem alto, para que mesmo os que estão no topo mais alto possam ouvir: Com todas as nossas forças defenderemos cada um de nossos irmãos, independente de nacionalidade, sexo ou religião, e mesmo que nosso fim seja morte, que o nosso sangue não seja derramado em vão, e que sirva pra levantar mais e mais indignados, e que sirva pra acordas os que se encontram resignados e sem forças pra se reerguerem.
Se o resultado for à liberdade, a igualdade, a paz e a verdadeira unidade, vale a pena pagar preço de vida!
O que não podemos aceitar é uma idéia ultrapassada que desde a idade média é usada como arma pra oprimir as pessoas, a idéia de que temos que nos conformar diante das situações, mesmo que seja as piores possíveis, a idéia de que sempre alguém mandou e outro foi mandado, a idéia de que uma classe sempre escravizará a outra, a idéia de que sempre haverá fome, desigualdades e tudo que puder traduzir os males...

Vale à pena, se o resultado final for à vitória, lutar, sofrer perseguições, e quem sabe até enfrentar a morte.

Vale à pena... Eu acredito e vale à pena...

A pessoa que vos escreve tem nesse exato momento 19 anos, 7 meses e 1 dia... E tem plena certeza e convicção que chegará aos seus últimos dias pensando da mesma forma. Pois como dizia Helder Câmara: "O segredo de ser jovem – mesmo quando os anos passam, deixando marcas no corpo – é ter uma causa a que dedicar à vida"... A minha eu já encontrei...

E quando chegar o fim que eu possa dizer com muito orgulho: Lutei pelo bom, pelo justo, pelo melhor do mundo...



xPhaby Alvesx

Salud y Revolución

13 de maio de 2008

A ética comunista de Che Guevara

A ética comunista de Che Guevara

Os valores éticos na sua concepçom do comunismo e na sua crítica do modelo soviético

Michael Löwy

Nom há dúvida que, quarenta anos depois da sua morte, Ernesto Guevara continua a ser umha referência, a escala planetária, para todos aqueles e aquelas que rejeitam a infámia da ordem –imperial e capitalista– estabelecida e acreditam que “um outro mundo é possível”. Há algo na vida e na mensagem do médico/guerrilheiro argentino/cubano que ainda fala às geraçons de 2007. De outro modo, como explicar esta pletora de obras, artigos, filmes e debates? Nom é um simples efeito comemorativo do aniversário: quem se interessava, em 2003, polos cinqüenta anos da morte de José Estaline? Para além da linguagem, da terminologia, de certos temas e obsessons datadas, fica na figura do Che Guevara um núcleo incandescente que continua a abrasar.

Isto procede de modo particular para a América Latina. A herança do guevarismo, como sensibilidade revolucionária e como resistência irredutível à ordem estabelecida, resta vigorosa na esquerda radical, e em certos movimentos sociais, como o América Latina. (Movimento dos Camponeses Sem Terra) do Brasil ou os piqueteros argentinos. A componente guevarista está também bem presente na origem do grupo que forma o EZLN (Exército Zapatista de Libertaçom Nacional).

O que está a acontecer na Bolívia, país em que Guevara derramou o seu sangue num derradeiro combate? No seu discurso de investidura presidencial em Janeiro de 2006, Evo Morales rendeu homenagem aos “nossos antepassados que luitárom”: “Tupak Katari para restaurar o Tahuantinsuyo, Simón Bolívar para a grande pátria e Che Guevara para um mundo novo feito de igualdade”.

Nas luitas emancipadoras na América Latina, apercebem-se os traços, bem visíveis, bem invisíveis, do pensamento do Che. Está presente tanto no imaginário colectivo dos combatentes, como nos seus debates a respeito dos métodos, da estratégia e da natureza da luita. Pode-se considerar como um dos fios vermelhos com que se tecem, da Patagónia ao Rio Grande, os sonhos, as utopias e as acçons revolucionárias.

Sem dúvida, existem muitas razons para esta sobrevivência de Guevara na entrada do século XXI, mas umha delas é certamente a importáncia da dimensom ética na sua vida e pensamento, nos seus escritos e nos seus actos. Eu proponho que se designe por umha ética comunista: “comunista” nom no senso estreito de aderir a um partido político –e menos ainda de partidário da URSS (senso usual da palavra na linguagem da Guerra Fria), aliás na significaçom originária do termo, tal como Marx e Engels a formulam em O Manifesto Comunista de 1848. Umha significaçom que reenvia aos séculos de luitas de classes, e de combates inspirados polo que Ernst Bloch chamava O Princípio Esperança, isto é, o sonho de umha marcha em pé da humanidade. O comunismo de Marx, que era também o de Lenine e Trotsky em Outubro de 1917, de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht em Janeiro de 1919, de António Gramsci, de Júlio Mella, de José Carlos Mariátegui, de Farabundo Martí, e de tantos outros pensadores e combatentes, nom pode encerrar-se dentro de algum muro, e ainda menos no que caiu em Berlim em 1989.

Antes de Guevara, Mariátegui foi um dos escassos marxistas latino-americanos em atribuir um lugar central à ética na sua interpretaçom do materialismo histórico. No seu livro (póstumo) Defensa del marxismo (1930) dedica muitas páginas à funçom ética do socialismo –publicadas em Cuba no primeiro número da revista Tricontinental– que concluem com esta afirmaçom: a ética socialista “nom surge mecanicamente do interesse económico: ela afirma-se na luita de classes, dada com um espírito heróico, umha vontade apaixonada”. Nom sabemos se o Che conhecia este texto de Mariátegui, tam próximo das suas ideias; nom está excluído que o tivesse lido, pois a sua companheira dos anos 50, a jovem peruana Hilda Gadea, lhe emprestara os escritos de Mariátegui.

A ética comunista de Che Guevara, humanista e revolucionária, estava fundada em alguns valores essenciais: a liberdade (isto é, a libertaçom de toda opressom política ou económica), a igualdade, a solidariedade entre indivíduos e entre povos, a democracia revolucionária, o internacionalismo. A sua procura de um modelo alternativo vai inspirar, a partir de 1963, a tentativa de formular outra via ao socialismo, mais radical, mais igualitária, mais fraternal.

O motor essencial desta procura de um caminho novo –para além de questons económicas específicas, sobre as quais havemos de voltar– é o convencimento de que o socialismo (o comunismo) nom tem senso, e nom pode triunfar, de nom representar um projecto de civilizaçom, umha ética social, um modelo de sociedade totalmente antagónico com os valores do individualismo mesquinho, do egoísmo feroz, da competitividade, da guerra de todos em contra de todos do sistema capitalista, este mundo em que “o ser humano é o lobo do ser humano”.

Para Guevara, a construçom do socialismo é inseparável de certos valores éticos, contrariamente ao que proclamam as concepçons economicistas –desde Estaline até Krutchev e os seus sucessores– que nom se interessam mais que polo “desenvolvimento das forças produtivas”. Na sua célebre entrevista com o jornalista Jean Daniel (Julho de 1963) observava, no que seria umha crítica implícita ao “socialismo real”: “o socialismo económico, sem a moral comunista, nom me interessa. Nós luitamos contra a miséria mas, ao mesmo tempo, contra a alienaçom. (…) Caso o comunismo ignore os factos de consciência, pode ser um método de distribuiçom, mas nunca umha moral revolucionária”.

Caso o socialismo queira luitar contra o capitalismo e vencê-lo no seu próprio terreno, o terreno do produtivismo e do consumismo, ao empregar as suas próprias armas –a forma mercantil, a concorrência, o individualismo egoísta– está condenado ao fracasso. Nom se pode dizer que Guevara avisou do desabamento da URSS mas, de certa forma, intuiu que um sistema “socialista” que nom tolera as divergências, que nom representa valores éticos novos, que pretende imitar o seu adversário e que nom possui umha outra ambiçom que “alcançar e ultrapassar” a produçom das metrópoles capitalistas, nom tem porvir.

De 1959 a 1967, o pensamento do Che evoluiu muito. Afastou-se cada vez mais das ilusons iniciais a respeito do socialismo soviético e do marxismo de tipo soviético, quer dizer, do estalinismo. Numha carta de 1965 a um amigo cubano, criticava duramente o “seguidismo ideológico” que estava a manifestar-se em Cuba com a ediçom de manuais soviéticos para o ensino do marxismo –um ponto de vista coincidente com o defendido, nessa mesma época, por Fernando Martínez, Aurelio Alonso e os seus amigos do Departamento de Filosofia da Universidade de Havana e da revista Pensamiento crítico. Estes manuais –que nomeia como “os calhamaços soviéticos”– “tenhem o inconveniente de nom te deixarem pensar: o Partido já fai isso por ti e tu tés de o digerir”. Percebe-se, de modo cada vez mais explícito, mormente nos seus escritos a partir do debate económico de 1963, o rejeitamento crescente do “decalque e cópia” –estou a pensar aqui na célebre fórmula de Mariátegui: o socialismo indo-americano nom será decalque e cópia doutras experiências, aliás criaçom heróica– e a procura de um modelo alternativo.

Nom é, pois, por acaso que a posiçom, no que di respeito à questom do socialismo “realmente existente” tomou, depois de 1965, a forma de umha crítica radical de um manual soviético.

Trata-se das notas críticas ao Manual de Economia Política da URSS (ediçom em espanhol de 1963) que Che Guevara redigiu, na sua estadia na Tanzánia e em Praga, em 1965-66, após o fracasso da sua missom no Congo e antes de partir para a Bolívia. Há muito tempo, muitíssimo tempo que era esperada a publicaçom desta obra… Durante dezenas de anos, este documento ficou “fora de circulaçom”; logo a seguir à queda da URSS foi permitido consultá-lo a alguns investigadores cubanos, e extrair alguns curtos fragmentos para os seus trabalhos. E é agora, quarenta anos depois da sua redacçom, que se decidiu publicá-lo em Cuba, numha ediçom aumentada que contém outros materiais inéditos: umha carta do Che a Fidel Castro, de Abril de 1965, que serve de Prólogo ao livro, notas sobre escritos de Karl Marx e de Lenine, umha selecçom de conversaçons entre Guevara e os seus colaboradores do Ministério da Indústria (1963-65) –já parcialmente publicadas em França e em Itália nos anos 70–, cartas a diversas personalidades (Paul Sweezy, Charles Bettelheim), e extractos de umha entrevista com o jornal egípcio El-Taliah (Abril de 1965).

Porque as notas de Guevara nom se publicárom mais cedo? Pode, no limite, compreender-se que, antes do fim da URSS, existissem razons “diplomáticas” para ocultar a verdade. Mais, depois de 1991? O prefácio do livro, de Maria del Carmem Ariet, do Centro de Estudos Che Guevara de Havana, nom explica nada, e limita-se a observar que “este texto foi durante anos um dos mais esperados” do Che.

Por fim, este material está agora à disposiçom dos leitores interessados, e é, com efeito, apaixonante. Testemunha à vez a independência de espírito de Guevara, a sua tomada de distáncia crítica em face do modelo de “socialismo realmente existente”, e a sua procura de umha alternativa radical. Mas mostra em simultáneo os limites da sua reflexom.

Principiemos por eles: o Che, neste momento –nom se sabe se o seu pensamento neste tema avançou em 1966-67– nom compreendeu a questom do estalinismo. Atribui os becos sem saída da URSS dos anos sessenta a… a NEP de Lenine! Certamente, ele pensa que, se Lenine tivesse vivido mais tempo –ele cometeu o erro de morrer, anota com ironia– teria corrigido os efeitos mais retrógados dessa política. Mas está convencido de que a introduçom de elementos capitalistas pola NEP conduziu para nefastas tendências que observa na URSS em 1963, ao caminhar no senso de umha restauraçom do capitalismo. Todas as críticas de Guevara à NEP nom som sem interesse e, por vezes, coincidem com as da oposiçom de esquerda em 1925-27; por exemplo, quando está a constatar que no curso dos anos 20, “os quadros aliárom-se ao sistema ao constituirem umha casta privilegiada”. Pergunta a si próprio se nom leu Trotsky –que definia a burocracia como umha “casta”–, mais ele nom o menciona em parte algumha nestas notas… Em todo o caso, a hipótese histórica que fai da NEP responsável polas tendências pró-capitalistas na URSS de Brejnev é, às claras, pouco operativa. Excepto um ou dous comentários, as notas ignoram por completo, de um modo simples, o estalinismo e as monstruosas deformaçons que introduziu no sistema económico, social e político da URSS.

Este documento –com outros materiais publicadosnesta compilaçom de 2006– ao ser ainda pouco conhecido, vamos conceder-lhe um lugar central na nossa discussom da sua concepçom do socialismo.

O socialismo para o Che era o projecto histórico de umha nova sociedade, fundada sobre os valores da igualdade, a solidariedade, o colectivismo, o altruísmo revolucionário, o internacionalismo, o livre debate e participaçom popular. Assim como as suas críticas, crescentes, ao modelo soviético pola sua prática como dirigente e a sua reflexom sobre a experiência cubana inspiradas nesta utopia –no senso que dá Ernst Bloch a esta palavra, umha “paisagem-de-desejo”– comunista.

Quatro aspectos traduzem concretamente a ética revolucionária de Ernesto Guevara e a sua procura de um novo caminho: o internacionalismo; umha concepçom da construçom do socialismo que opom a solidariedade ao indiviualismo mercantil; a questom da livre expressom dos desacordos, e a perspectiva da democracia socialista. Som os dous primeiros que ocupam o lugar principal das suas reflexons: os outros dous –estreitamente ligados– estám muito menos desenvolvidos, com lacunas e contradiçons. Mas estám, contodo, presentes nas suas preocupaçons e na sua prática política. Nom se encontra, nos seus escritos, um pensamento acabado, sistemático, sobre estas questons: muitas pistas, aberturas, janelas que dam para “um outro mundo possível”.

1 O internacionalismo socialista

Há umha frase de José Marti que Guevara gostava de citar nos seus discursos e em que via “a bandeira da dignidade”: “Todo ser humano verdadeiro deve sentir sobre a sua face a pancada dada a nom importa que outro ser humano”. A traduçom política desta dignidade é o internacionalismo. Já agora, o internacionalismo é umha necesidade, um imperativo estratégico no combate contra o imperialismo –é o tema central da sua Carta à Tricontinental (1966)–, mas é, também, umha alta exgigência moral: internacionalista é quem for capaz de “experimentar a angústia quando um homem é assassinado em qualquer parte do mundo e celebrar quando se ergue em qualquer parte umha nova bandeira da liberdade”; o que sente “como umha afronta pessoal toda agressom, toda afronta à dignidade e à felicidade do homem, nom importa em que parte do mundo”.

No seu célebre “Discurso de Argel” (Fevereiro de 1965), Che Guevara exigia dos países que se reclamavam do socialismo “liquidar a sua complicidade tácita com os países exploradores de Ocidente”, que estava a traduzir-se em relaçons de intercámbio desigual com os povos em luita contra o imperialismo. Este assunto volta muitas vezes nas Notas Críticas sobre o Manual Soviético. Enquanto os autores desta obra oficial gabam “a ajuda mútua” entre países socialistas, o antigo Ministro da Indústria cubano está obrigado a constatar que esta nom está a corresponder-se com a realidade: “A presidir o internacionalismo proletário os actos dos governos de cada país socialista (…) isto seria um êxito. Mas o internacionalismo foi substituído polo chauvinismo (de grande potência ou de pequeno país) ou osubmetimento à URSS (…). Isto fere (atenta contra) todos os sonhos honestos dos comunistas do mundo”. Algumhas páginas mais adiante, num comentário irónico a umha afirmaçom do Manual a respeito da divisom do trabalho entre países socialistas, fundada sobre umha “fraternal colaboraçom”, Guevara observa: “A gaiola de grilos (olla de grillos) que é o CAME desmente tal asseveraçom na prática. O texto está a referir-se a um ideal que poderia estabelecer-se somente com umha verdadeira prática do internacionalismo proletário, mas está lamentavelmente ausente hoje”. No mesmo senso, noutro fragmento constata, com amargura, que nas relaçons entre países que se reclamam do socialismo se encontram “fenómenos de expansionismo, de intercámbio desigual, de concorrência, mesmo um certo ponto de exploraçom e certamente de submetimento dos Estados fracos aos fortes”. Numha palavra, quando o Manual fala da necessidade do Estado para “a construçom do comunismo”, a crítica coloca esta questom retórica: “pode construir-se o socialismo num só país?”. Mesmo se Trotsky em modo nengum é mencionado nestas Notas, nom se pode outra cousa que certificar a analogia entre esta advertência e as posiçons da oposiçom comunista de esquerda de 1927… Outra nota interessante vai no mesmo senso: Lenine, observa o Che, “afirmou com claridade o carácter universal da revoluçom, cousa que de seguida foi negada” –umha referência transparente ao “socialismo num só país”, mas, mais umha vez, nom é questom de estalinismo.

2. Por um socialismo da fraternidade

A solidariedade é um vector político e moral tanto para as relaçons entre povos como entre indivíduos: trata-se de momentos dialecticamente inseparáveis. No mesmo discurso de Argel, Guevara insistia: “nom pode existir o socialismo se nom operar nas consciências umha mudança que conduza para umha nova atitude fraternal com a humanidade, tanto a nível do indivíduo, na sociedade em que se constrói ou que constrói o socialismo, como a nível mundial, em relaçom com os povos que estám a sofrer a opressom imperialista”.

O socialismo nom é unicamente umha mudança económica, mas também umha profunda revoluçom moral e cultural –que Guevara designa com o conceito de “homem novo”– em ruptura com o utilitarismo egoísta e mercantil da civilizaçom do capital. Ao analisar no seu ensaio de Março de 1965, O socialismo e o homem em Cuba, os modelos de construçom do socialismo dominantes na Europa oriental, rejeitava a concepçom que pretendia “vencer o capitalismo com os seus próprios feitiços”: “Ao perseguir a quimera de realizar o socialismo com a ajuda das armas poluídas que nos legou o capitalismo –a mercadoria tomada como célula económica, o rendimento, o interesse material individual como alavanca, etc, pode desembocar-se numha via sem saída. Para construir o comunismo, é preciso, ao mesmo tempo que a base material, criar o homem novo”.

Este “homem novo”, portador de umha consciência revolucionária, nom pode desenvolver-se se nom for a partir de valores como a solidariedade e a igualdade. Um documento apaixonante sobre a evoluçom das ideias do Che Guevara som as actas das discussons periódicas que mantinha com os seus colaboradores do Ministério da Indústria. Longos extractos destas actas figuram no mesmo volume, publicado em 2006 em Havana, que as notas críticas sobre o Manual soviético. Despois de umha discussom em Dezembro de 1963, o camarada ministro observava: “O comunismo é um fenómeno de consciência e nom somente um fenómeno de produçom; nom se pode chegar ao comunismo pola simples acumulaçom mecánica de quantidades de produtos postos a disposiçom do povo. Nom se pode chegar ao que Marx definia como comunismo (…) se nom existir um ser humano consciente”.

Num debate de Dezembro de 1964, o Che volta sobre a questom da ausência de igualdade verdadeira no “socialismo real”. Um dos principais perigos do modelo importado dos países do Leste europeu era o aumento da desigualdade social e a formaçom de umha minoria privilegiada de tecnocratas e burocratas: neste sistema de distribuiçom “som os directores os que ganham cada vez mais. Basta ver o último projecto da RDA, a releváncia que assume a gestom do director, ou melhor, a retribuiçom da gestom do director”. Esta questom preocupa-o até o mais alto grau, a tal ponto que a menciona de novo numha carta a Fidel Castro de Abril de 1965 (um pouco antes da sua partida de Cuba) –também publicada, pola primeira vez, na colectánea de 2006– onde ele fai referência ao “interesse material dos dirigentes, princípio da corrupçom”.

O fundo do debate, em 1963-66, à vez com os partidários da “lei do valor no socialismo” -um dogma de Estaline defendido no debate económico cubano por Charles Bettelheim, e contestado por Ernest Mandel– e mais tarde, com as afirmaçons do Manual soviético, era um confronto entre umha visom economicista –a esfera económica como sistema autónomo, regida polas suas próprias leis, como a lei do valor ou as leis do mercado– e umha concepçom política e moral do socialismo, isto é, a tomada de decisons económicas –as prioridades produtivas, os preços, etc. –segundo critérios sociais, éticos e políticos. As proposiçons económicas de Guevara –a planificaçom contra o mercado, o sistema orçamental de financiamento, os estímulos colectivos ou “morais”– tinham como objectivo um modelo de construçom do socialismo fundado nestes critérios e diferente, portanto, do soviético.

3. A liberdade de discussom

A liberdade como valor ético é, para Ernesto Guevara, primeiro que toda a libertaçom em relaçom à dominaçom do capital e a alienaçom mercantil; segundo as Notas críticas ao Manual, trata-se de “libertar o ser humano da sua condiçom de cousa económica”.O que se passa com a liberdade de expressom das divergências? Um aspecto político importante do debate económico dos anos 1963-64, que merece ser alegado, é o facto mesmo da discussom. Quer dizer, o reconhecimento de que a expressom pública dos desacordos é normal num processo de construçom do socialismo. Noutros termos, a legitimaçom de um certo pluralismo democrático na revoluçom. Esta problemática está apenas implícita no debate económico. Guevara nom a desenvolveu de forma explícita ou sistemática. Mas a sua atitude, com diversas retomadas no curso da década de 60, mostra que era favorável ao livre debate, e ao respeito da pluralidade de opinions. A modo de exemplo, numha das discusons com os seus colaboradores (Dezembro de 1964) dirige-se ao seu principal adversário no debate económico cubano, o comandante Alberto Mora : “Faltam ao trabalho de Alberto duas cousas. Ou que nos demonstre que nous avons tort (que estávamos enganados) –o que em modo algum pode ser mau– ou entom que demonstre a si próprio que nom tem razom, o que nom pode ser tampouco mau. Tanto num caso como no outro (Cualquiera de las dos cosas) vai enriquecer-se qualquer cousa que é bastante pobre e que precisa de um trabalho suplementar”.

Outro exemplo interessante é o seu comportamento a respeito dos trotskistas cubanos, com quem nom partilhava de nengum modo as análises (criticou-nos com dureza em diversas ocasions). Em 1961, numha entrevista com um intelectual da esquerda norte-americana Maurice Zeitlin, Guevara denunciou a destruiçom, pola polícia cubana, das placas de impressom de A Revoluçom Permanente de Trotsky, como um “erro” que “nom deveria ter lugar” e alguns anos mais tarde, pouco antes de abandonar Cuba em 1965, ele conseguiu tirar da cadeia o dirigente trotskista cubano Roberto Acosta Hechevarria, a quem manifesta, antes de o deixar com um abraço fraternal: “Acosta, as ideias nom se matam a golpe de matraca”.

Nom obstante, a sua reflexom mais importante neste terreno é a sua resposta –no debate de Dezembro de 1964 com os seus camaradas do Ministério da Indústria já mencionada– a crítica de certos soviéticos, que o acusavam de defender ideias “trotskistas”. “Neste tema, penso que, ou bem temos a capacidade de destruir com argumentos a opiniom contrária, ou bem debemos deixar que se expresse. Nom é possível destruir umha opiniom à força, pois esta bloqueia por completo o livre desenvolvimento da inteligência. Assim, no pensamento de Trotsky podem assumir-se umha série de cousas, mesmo se, como eu penso, está equivocado nas suas concepçons, e a sua acçom posterior foi equivocada” Guevara ajusta ironicamente que os soviéticos o tratárom de “trotskista”, ao aplicar-lhe esta etiqueta como um “Sam Benito”–isto é, o hábito com que a Inquisiçom em Espanha cobria os hereges no momento de os conduzir à fogueira…

Talvez nom seja um acaso que a defesa mais explícita da liberdade de expressom e a crítica mais directa de Guevara ao autoritarismo estaliniano venha de manifestar-se no terreno da arte. No seu célebre ensaio O Socialismo e o Homem em Cuba (1965) denuncia o “realismo socialista” de feitio soviético como imposiçom de umha forma de arte –a que “entendem os funcionários”. Com este método, sublinhava, “está a suprimir-se a autêntica procura artística” e está a impor-se “umha verdadeira camisa de força à expressom artística”.

4. A democracia socialista

A democracia, ou o anti-autoritarismo, era também um valor ético importante para Che Guevara. Já agora, nunca elaborou umha reflexom teórica sustentada a respeito do papel da democracia na transiçom ao socialismo –talvez a maior lacuna da sua obra–, mas rejeitava as concepçons autoritárias e ditatoriais que prejudicárom a tal ponto o socialismo do século XX. Aos que pretendiam, por cima, “educar o povo” –falsa doutrina já criticada por Marx nas suas Teses sobre Feuerbach de 1845 (“quem vai educar os educadores?”), respondia, num discurso de 1960: “A primeira receita para educar o povo (…) é a de o fazer entrar na revoluçom. Nunca convém tentar educar um povo para que, unicamente por meio da educaçom, e um governo despótico por cima, aprenda a conquistar os seus direitos. Ensinade-lhe, antes de mais, a conquistar os seus direitos, e este povo, umha vez representado no governo, aprenderá todo quanto lhe for ensinado, e muito mais: ele será o mestre de todos, sem esforço nengum”. Por outras palavras: a única pedagogia emancipadora é a auto-educaçom dos povos pola própria prática revolucionária –ou, como escrevia Marx em A Ideologia Alemá (1846), “na actividade revolucionária, a mudança de um mesmo coincide com a transformaçom das condiçons”. As notas críticas redigidas em 1966 sobre o Manual de Economia Política soviético vam no mesmo senso: “O terrível crime histórico de Estaline “foi” o de ter desprezado a educaçom comunista e instituído um culto ilimitado da autoridade”. Mágoa que nom desenvolvesse esta ideia …

Guevara rejeita a democracia burguesa, mas –apesar da sua sensibilidade antiburocrática e igualitária– está longe de ter umha visom clara das relaçons entre socialismo e democracia. Em O Socialismo e o Homem em Cuba, reconhece que o Estado revolucionário pode equivocar-se e provocar assim umha reacçom negativa das massas populares, o que o obriga a rectificar –o exemplo que refere é a política sectária do Partido sob a direcçom do quadro estaliniano Aníbal Escalante em 1961-62. Contodo, aponta que “é evidente que este mecanismo nom basta para assegurar umha sucessom de medidas razoáveis: falta umha ligaçom mais estruturada com as massas”. Num primeiro momento, parece encontrar umha soluçom numha vaga “interrelaçom dialéctica” entre os dirigentes e as massas. Nom obstante, umhas páginas mais à frente, avisa de que o problema está longe de ter achado umha soluçom ajeitada, que permita um controlo democrático efectivo: “Esta institucionalidade da Revoluçom ainda nom tivo êxito. Nos estamos a procurar algo novo (…).

No curso do debate económico de 1963-65, a sua principal limitaçom neste terreno era a insuficiência da sua reflexom sobre a relaçom entre democracia e planeamento. Os seus argumentos em defensa da planificaçom e em contra das categorias mercantis som muito importantes e cobram nova actualidade frente à vulgata neoliberal que domina hoje com a sua “religiom do mercado”. Mas deixam na sombra umha questom política chave: quem decide as grandes opçons do plano económico? Quem determina as prioridades da produçom e do consumo? Sem umha verdadeira democracia –isto é: a) pluralismo político; b) livre discussom de prioridades e c) livre eleiçom para a populaçom entre as diversas proposiçons e plataformas económicas propostas –a planificaçom transforma-se inevitavelmente num sistema burocrático, autoritário e ineficaz de “ditadura sobre as necessidades”, como o mostra sobejamente a história da ex-URSS. Por outras palavras: os problemas económicos da transiçom ao socialismo som inseparáveis da natureza do sistema político. A experiência cubana dos últimos trinta anos revela, ela também, as conseqüências negativas da ausência de instituçons democráticas/socialistas –mesmo se Cuba tivo êxito ao evitar as aberraçons burocráticas e totalitárias de outros Estados do assim nomeado “socialismo real”.

Quem deve planificar? O debate de 1963-64 nom respondeu a esta questom. É neste tema que se encontram os avanços de mais interesse nas notas de 1965-66. Ao criticar umha vez mais o modelo soviético escreve: “Em contradiçom com umha concepçom do plano como decisom económica de massas conscientes dos interesses populares, oferece-se um placebo, em que só os elementos económicos decidem sobre o destino colectivo. É um procedimento mecanicista, anti-marxista. As massas devem ter a possibilidade de dirigirem o seu destino, de decidirem qual é a parte da produçom que irá à acumulaçom e qual será consumida. A técnica económica tem de operar nos limites destas indicaçons e a consciência das massas deve assegurar a sua aplicaçom”. Este tema é retomado em diversas ocasións: os obreiros, escreve, o povo em geral, “decidirám sobre os grandes problemas do país (taxas de crescimento, acumulaçom/consumo), mesmo se o plano é obra de especialistas”. (25) Pode criticar-se esta separaçom em excesso mecánica entre as decisons económicas e a sua execuçom, mas por estas formulaçons Guevara está a aproximar-se consideravelmente da ideia de planificaçom socialista democrática, tal como, por exemplo, a formulava Ernest Mandel. Nom extrai todas as conclusons políticas –democratizaçom do poder, pluralismo político, liberdade de organizaçom–, mas nom se pode negar a releváncia desta visom nova da democracia económica.

Podem-se considerar estas notas como umha etapa importante no caminho do Che Guevara de cara a umha alternativa comunista/democrática face ao modelo (estalinista) soviético. Um caminho brutalmente interrompido polos assassinos bolivianos ao serviço da CIA em Outubro de 1967.

Michael Löwy é teórico marxista, especialista na questom nacional e no Che Guevara, e militante da LCR francesa.



Retirado do Primeira Linha



Salud y Revolucion!

16 de abril de 2008

Socialismo: O Nome Político do Amor


Eu não podia deixar de maneira nenhuma de postar este texto aqui... Não tenho palavras pra descrever texto tão belo... só quem ler entenderá...



Socialismo: O Nome Político do Amor


Por que o socialismo, em tese uma alternativa humanitária ao capitalismo, fracassou na Europa e na Ásia? O capitalismo teve a esperteza de, ao privatizar os bens materiais, socializar os bens simbólicos. De dentro do barraco de uma favela uma família miserável, desprovida de direitos básicos como alimentação, saúde e educação, pode sonhar com o universo onírico das telenovelas e ter fé de que, através da loteria, da sorte, da igreja que lhe promete prosperidade ou mesmo da contravenção, haverá de ter acesso aos bens supérfluos.

O socialismo cometeu o erro de, ao socializar os bens materiais, privatizar os simbólicos, e confundiu crítica construtiva com contra-revolução; cerceou a autonomia da sociedade civil ao atrelar ao partido os sindicatos e movimentos sociais; coibiu a criatividade artística com o realismo socialista; permitiu que a esfera de poder se transformasse numa casta de privilegiados distantes dos anseios populares; e cedeu ao paradoxo de conquistar grandes avanços na corrida espacial e não ser capaz de suprir devidamente o mercado varejista de gêneros de primeira necessidade.

Hoje, resta Cuba como exemplo de país socialista. Todos conhecemos os desafios que a Revolução enfrenta às vésperas de seu meio século de existência. Sabemos dos efeitos nefastos do bloqueio imposto pelo governo dos EUA e de como a queda do Muro de Berlim deteriorou a economia da Ilha.

Apesar de todas as dificuldades, nesses 49 anos a Revolução logrou assegurar a 11,2 milhões de habitantes os três direitos básicos: alimentação, saúde e educação. Elevou a auto-estima da cidadania cubana, que tão bem se expressa em suas vitórias nos campos da arte e do esporte, bem como na solidariedade internacional, através de milhares de profissionais cubanos das áreas da saúde e da educação presentes em mais de uma centena de países do mundo, em geral em regiões inóspitas marcadas pela pobreza e a miséria.

O socialismo cubano não tem o direito de fracassar! Se acontecer, não será apenas Cuba que, como símbolo, desaparecerá do mapa, como ocorreu à União Soviética. Será a confirmação da funesta previsão de Fukuyama, de que "a história acabou"; a esperança - uma virtude teologal para nós, cristãos - findou; a utopia morreu; e o capitalismo venceu, venceu para uns poucos - 20% da população mundial que usufrui de seus avanços - sobre uma montanha de cadáveres e vítimas.

Nós, amigos da Revolução cubana, não esperamos de Cuba grandes avanços tecnológicos e científicos, serviços turísticos de primeira linha, medalhas de ouro em disputas desportivas. Esperamos mais do que isso: a ação solidária de que falava José Martí; a felicidade de um povo construída em base a valores éticos e espirituais; o princípio evangélico da partilha dos bens; a criação do homem e da mulher novos, como sonhava o Che, centrados na posse, não dos bens finitos, e sim dos bens infinitos, como generosidade, desapego, companheirismo, capacidade de fazer coincidir a felicidade pessoal com os sucessos comunitários.

Em resumo, almejamos que, em Cuba, o socialismo seja sempre sinônimo de amor, que significa entrega, compromisso, confiança, altruísmo, dedicação, fidelidade, alegria, felicidade. Pois o nome político do amor não é outro senão socialismo.


[Por: Frei Betto, Autor de "A mosca azul - reflexões sobre o poder" (Rocco), entre outros livros]



Salud y Revolución!



10 de abril de 2008

O REI CAIU!!!!






No fim da manhã de hoje, Timothy se afastou do cargo de Reitor da UnB!!!
É bonito ver que a ocupação tem força pra caminhar e conquistar aquilo a que se propõe!

O afastamento de Timothy é, definitivamente, uma vitória. Porém, a nossa pauta AINDA não foi contemplada: dentre outras coisas, exigimos a saída do reitor e do vice-reitor, a dissolução do Conselho Diretor e a convocação de novas eleições diretas e paritárias para Reitor.

Mais Informações: http://www.ocupacaounb.blogspot.com/


xPhaby Alvesx

Salud y Revolución